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Ambidestria: uma chave perdida para a Totalidade

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“Como prometido, vou enfim apresentar este aspecto do regulamento, e ele diz como a Ambidestria, ou o cultivo consciente dos dois lados do corpo-mente tonal, serve como catalisadora para a recuperação da consciência da nossa totalidade e cria as condições para o vislumbre da Liberdade Total.

Em 2006, quando era um estudante prestes a abandonar a faculdade de direito e procurava por uma consulta de tarô, certa tarde fui bater em uma casa na região onde morava, e ali vim a conhecer um vidente e multiartista chamado Sir Bob Laugh, um homem que me causou uma forte impressão, diferente de qualquer pessoa que já tinha conhecido.

Ao final da consulta, ele me apresentou um método que consistia em começar a usar o lado invertido do corpo nas ações e rotinas do dia a dia, como por exemplo ao cortar o pão, escovar os dentes, puxar a “pisada” no caminhar, lavar a louça… até usar narina, olho, ouvido, perna, pé, mordida, alfabetizando assim pouco a pouco todo o lado esquerdo do corpo na arte da ação, e, simultaneamente, o lado direito na arte da paciência, observação silenciosa e do apoio à ação do lado esquerdo.

Como ele explicou, era uma “transferência de habilidades” de um lado para o outro: o lado esquerdo se tornando aprendiz de ação e mestre de apoio, e o direito aprendiz de apoio e mestre de ação.

Segundo explica esse método, a exclusão do lado esquerdo do corpo no dia a dia, pela quase totalidade dos seres humanos, o transformou em uma espécie de depósito dos nossos complexos, confusões, medos e inseguranças, os “podres” pessoais e sombras que renegamos da conscientização do lado direito e jogamos no “porão” inconsciente do lado esquerdo.

O fato de alimentar com atenção e conscientização o lado “fraco” e negligenciado do nosso corpo-emoções-mente, leva a despertar e reintegrar ao lado direito essas sombras negadas, e a limpar emocionalmente o lado esquerdo desses medos.

Uma vez limpo, entramos novamente em contato com aspectos dormentes da nossa consciência, recuperando nossa vida nos sonhos da noite, nossa saúde física, emocional e intelectual, e corrigindo o desequilíbrio entre o feminino e masculino em nós. É, assim, um meio simples e natural de abrir as portas para recuperar o mágico que se havia perdido na vida humana adulta.

Não tive problemas em entender a lógica sadia por trás do princípio, e colocá-lo em pratica, com curiosidade e ceticismo. De fato, era um fenômeno muito estranho que, diferente dos outros animais, os humanos se tornassem quase todos exclusivamente destros. E claramente problemáticos. A medida que progredi nos primeiros exercícios que haviam sido propostos e que voltei a visitar Sir Bob repetidas vezes, ele me apresentou aos livros do Castañeda. Vim a compreender que ele próprio era um praticamente moderno do nagualismo.

Desde essa época vim testando em mim mesmo a eficácia dessa prática, e pude com o tempo corroborar todos os benefícios prometidos. Agora compartilho este pequeno segredo da nossa mãe natureza, como um princípio que pode ser “adicionado” às práticas de qualquer guerreira ou guerreiro para que os benefícios sejam colhidos a médio e longo prazo.

Na próxima publicação explorarei e aprofundarei mais a temática. Termino esta postagem deixando para quem se interessar a 1a parte de um poderoso exercício concebido pelos videntes da nossa linhagem especificamente para acelerar este processo, que é o de escrever com a mão esquerda, toda noite antes de dormir, por 10 minutos e apenas sobre as coisas que não gostamos em nós, ou nosso pai, ou nossa mãe. Atentando para ser sinceros, sem censuras, e a respirar enquanto se escreve para “destravar” os movimentos da mão esquerda. E atentando também especialmente para a qualidade de apoio oferecido pela mão direita… e seguir com o exercício até a escrita pela esquerda começar a ficar “redonda”. Recomenda-se destruir o papel depois de cada sessão.”

– Tito Roman

A Exclusão do lado Esquerdo do Tonal

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“Todo ser vive em duas realidades simultâneas. Uma é a do seu corpo sutil, a outra a do seu corpo físico, mas em geral só conseguimos estar conscientes de uma delas de cada vez. Somos orgânicos e inorgânicos, masculino e feminino, pessoais e holísticos. Todo ser humano vem munido de um duplo sistema, cujas partes podem ser chamadas de sistema do lado esquerdo e sistema do lado direito. O sistema do lado direito é de energia densa e composto pelo lado direito do corpo ativo e o lado esquerdo no apoio, e o sistema do lado esquerdo de energia sutil e composto pelo lado esquerdo do corpo ativo e o direito no apoio.

Há muito tempo atrás, como ensinou o velho nagual Elias, a humanidade como um todo começou a se mover do conhecimento silencioso para a razão. Esse intento só se reafirmou continuamente desde então, e levou, com o tempo, a um domínio total do sistema do lado direito. Não estamos falando de ideologias sociais e sim de fatos energéticos. Isso levou os seres humanos a adquirirem um sentimento cada vez mais acentuado de sua separação, que culminou com o tempo em aplicarem a mesma divisão nos dois lados do corpo, se especializando em um e relegando o outro à passividade. Esse desequilíbrio se transformou em um domínio do Masculino dentro de cada ser sobre o Feminino, que começou como uma divisão de papeis ativo e passivo entre os sexos e levou com o tempo a um domínio do coletivo masculino sobre o coletivo feminino e da descrição de mundo do tonal sobre os sonhos e a criatividade.

Isso se manifestou coletivamente de diferentes formas – desde a Inquisição, o Patriarquismo, as guerras baseadas no poder material, as opressões étnicas, o desenvolvimento da ciência, as hierarquias nas igrejas e religiões, o acumulo de riquezas enormes pelos mais intensamente dominados por essa mentalidade. Quanto mais os seres humanos adquiriram um sentido acentuado de sua separação, mais poder adquiriram no âmbito do tonal, mas mais inconscientes do lado esquerdo se tornaram. A ponto de hoje, termos mais de 90% da população destra, e não surpreendentemente quase que totalmente incapaz de lidar com o feminino; e mais presa no sentimento de separação e desconexão com o todo do que nunca. Nossa sociedade se moldou a esse desequilíbrio, sendo feita quase que toda para pessoas destras e para a energia masculina. Os mais velhos devem saber ou conhecer histórias sobre como o “canhotismo” foi duramente reprimido.

A entrada para o lado esquerdo, nosso caminho para o Poder, fica bloqueada em todos os seres humanos pelo acumulado de “podres” pessoais, as sombras do lado direito, todos os medos, projeções, ódios, complexos que o lado direito nega em si mesmo e projeta e “joga” para o esquerdo. Em outras palavras, jogamos nossos podres pra debaixo do tapete no subconsciente ou inconsciente, e tentamos nos conscientizar apenas das coisas que aprovamos em nós. Em tudo se repete essa dicotomia: separamos as coisas em duas partes, uma tentamos apagar, e a outra exaltar.

Mesmo com isso tudo o sistema do lado esquerdo continua existindo. Mas em geral, como uma planta que pouco foi regada, não amadurece a ponto de adquirir consciência de si mesmo.

Os naguais, ou seres de 4 e também de 3 pontas, como todos os seres humanos, também foram compelidos a usar apenas a conscientização do lado direito. No entanto, pelo fato de terem o compartimento direito dividido em duas partes, mantêm uma intuição natural da nossa dualidade e são compelidos a buscar pela possibilidade da liberdade.

Os seres de 2 pontas, que tem o corpo de energia dividido em dois compartimentos, e que usam exclusivamente o sistema do lado direito, se vêem em um movimento cíclico vicioso, completamente desconectados do Espírito e do regulamento pois a visão consensual de mundo se torna totalmente absorvente.

A boa notícia é que uma vez que se intenta colocar o 2o compartimento em funcionamento no tonal, e vice-versa, pouco a pouco vamos recuperando a perspectiva correta da nossa totalidade e o fio da meada para a liberdade.”

– Tito Roman

Sobre a projeção, os Movimentos dos Dois lados, a separação do Duplo, e a Liberdade do Meio

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“Você só pode aprender algo sobre o duplo praticando. E estou falando com você porque sua fase de transição ainda não terminou. Emilito pegou-me pelo braço e, sem dizer mais nada, praticamente arrastou-me até os fundos da casa, onde posicionou-me debaixo de uma árvore com o topo da cabeça a poucos centímetros de um galho baixo e grosso. Explicou que ia ver se eu conseguia projetar meu duplo novamente, desta vez plenamente consciente, com o auxílio da árvore.

Tive sérias dúvidas se eu seria capaz de projetar alguma coisa, e disse isso a ele. Mas Emilito insistiu que, se eu tivesse a intenção, meu duplo faria pressão de meu interior e se expandiria além dos limites de meu corpo físico.

— O que devo fazer exatamente? — perguntei, na esperança de que me mostrasse um procedimento que fosse parte da lei dos feiticeiros.

Emilito pediu-me para fechar os olhos e concentrar-me na minha respiração. À medida que fosse relaxando, eu devia ter a intenção de fluir ascendentemente, até conseguir tocar os galhos mais altos, com um sentimento proveniente do portal no topo da minha cabeça. Explicou que isto seria relativamente fácil para mim, pois eu estaria utilizando o apoio de minha amiga árvore. Prosseguiu dizendo que a energia da árvore formaria uma matriz para a expansão de minha consciência.

Após algum tempo concentrando-me na minha respiração, senti uma energia vibrando e ascendendo pela coluna vertebral, tentando abrir o topo da minha cabeça. Então algo aconteceu dentro de mim. A cada inspiração, uma linha se alongava até o topo da árvore; quando eu expirava, a linha era novamente puxada para meu corpo. A sensação de alcançar o topo da árvore tornou-se mais intensa a cada respiração, até que realmente acreditei que meu corpo estava se expandindo, tornando-se tão alto e volumoso quanto a árvore.

Em determinado momento, profunda afeição e compaixão pela árvore envolveram-me; nesse exato instante, algo ascendeu em movimento ondulante pelas minhas costas e atravessou o topo da minha cabeça, e eu me percebi contemplando o mundo dos galhos mais altos. Esta sensação perdurou apenas um instante, interrompida pela voz do caseiro, mandando-me descer e fluir novamente para dentro de meu corpo. Senti algo semelhante a uma cascata, uma efervescência fluindo para baixo, entrando pelo topo da minha cabeça e inundando meu corpo com um calor familiar.

— Você não deve permanecer misturada com a árvore por tempo demais — disse-me ele quando abri os olhos.

Senti uma vontade fortíssima de abraçar a árvore, mas o caseiro puxou-me pelo braço até uma grande rocha a alguma distância, onde nos sentamos. Explicou que, com o auxílio de uma força externa, neste caso unindo minha consciência à da árvore, é possível promover facilmente a expansão do duplo. Contudo, por ser fácil, corremos o risco de permanecer unidos à árvore por tempo demais e, nesse caso, podemos extrair a energia vital de que a árvore necessita para manter-se forte e saudável. Ou podemos deixar parte de nossa energia para trás, tornando-nos emocionalmente apegados à árvore.

—Uma pessoa pode fundir-se com qualquer coisa—explicou ele. — Se aquilo ou aquele que com que você se fundir estiver forte, sua energia será ampliada, como acontecia sempre que você se fundia ao mago, Manfred. Contudo se estiver doente ou fraco,permaneça longe. Em ambos os casos, você deve fazer o exercício com moderação pois, assim como tudo na vida, ele é uma faca de dois gumes. A energia exterior é sempre diferente da nossa, freqüentemente oposta.

Ouvi com atenção o que o caseiro dizia. Algo me chamou a atenção.

— Diga-me, Emilito, por que você chamou Manfred de mago?

— Essa é nossa maneira de reconhecer nossa singularidade. Manfred, para nós, só pode ser um mago. Ele é mais do que um feiticeiro. Ele seria um feiticeiro se tivesse vivido entre seu grupo. Ele vive entre seres humanos, feiticeiros humanos ainda por cima, em igualdade de condições. Somente um mago consumado poderia realizar tal façanha.

Perguntei-lhe se voltaria a ver Manfred; o caseiro cruzou os dedos indicadores sobre os lábios de maneira tão exagerada que fiquei em silêncio e não o pressionei mais por uma resposta.

Emilito pegou um galho e desenhou uma forma ovalada no solo macio. Em seguida, acrescentou uma linha horizontal que a atravessava ao meio. Apontando os dois lados, ele explicou que o duplo divide-se em uma parte inferior e outra superior que correspondem, aproximadamente, no corpo físico, ao abdômen e ao tórax. Duas correntes energéticas diferentes circulam nessas regiões. Na área inferior, circula a energia original que possuíamos quando ainda nos encontrávamos no útero. Na área superior, circula a energia do pensamento. Esta energia adentra o corpo por ocasião do nascimento, ao primeiro alento. Emilito explicou que a energia do pensamento é ampliada através da experiência e ascende até a cabeça A energia original mergulha na região genital. Em geral, ao longo da vida essas duas energias se separam no duplo, provocando fraqueza e desequilíbrio no corpo físico.

Ouvi com atenção o que o caseiro dizia. Algo me chamou a atenção.

— Diga-me, Emilito, por que você chamou Manfred de mago?

— Essa é nossa maneira de reconhecer nossa singularidade. Manfred, para nós, só pode ser um mago. Ele é mais do que um feiticeiro. Ele seria um feiticeiro se tivesse vivido entre seu grupo. Ele vive entre seres humanos, feiticeiros humanos ainda por cima, em igualdade de condições. Somente um mago consumado poderia realizar tal façanha.

Perguntei-lhe se voltaria a ver Manfred; o caseiro cruzou os dedos indicadores sobre os lábios de maneira tão exagerada que fiquei em silêncio e não o pressionei mais por uma resposta.

Emilito pegou um galho e desenhou uma forma ovalada no solo macio. Em seguida, acrescentou uma linha horizontal que a atravessava ao meio. Apontando os dois lados, ele explicou que o duplo divide-se em uma parte inferior e outra superior que correspondem, aproximadamente, no corpo físico, ao abdômen e ao tórax. Duas correntes energéticas diferentes circulam nessas regiões. Na área inferior, circula a energia original que possuíamos quando ainda nos encontrávamos no útero. Na área superior, circula a energia do pensamento. Esta energia adentra o corpo por ocasião do nascimento, ao primeiro alento. Emilito explicou que a energia do pensamento é ampliada através da experiência e ascende até a cabeça A energia original mergulha na região genital. Em geral, ao longo da vida essas duas energias se separam no duplo, provocando fraqueza e desequilíbrio no corpo físico.

Ele traçou outra linha, desta vez a partir do centro da elipse, dividindo-a longitudinalmente em duas partes, o que corresponde, afirmou ele, aos lados direito e esquerdo do corpo. Esses dois lados também possuem dois padrões específicos de circulação energética. No lado direito, a energia sobe pela região dianteira do duplo e desce pela região posterior. No lado esquerdo, a energia desce pela região dianteira do duplo e sobe pela região posterior.

Explicou que muitas pessoas, quando tentam ver o duplo, cometem o erro de aplicar ao duplo as leis do corpo físico, exercitando-o, por exemplo, como se fosse feito de músculos e ossos. Emilito assegurou-me de que não é possível condicionar o duplo através de exercícios físicos.

— A maneira mais fácil de solucionar esse problema é separar os dois — explicou o caseiro. — Somente quando estão incontestavelmente separados, a consciência pode fluir de um para o outro. É isso que os feiticeiros fazem. Assim, podemos dispensar a tolice de rituais, sortilégios e técnicas respiratórias elaboradas que supostamente os unificam.

— Mas e as respirações e passes de feitiçaria que Clara me ensinou?
Também são uma tolice?

— Não. Ela lhe ensinou apenas coisas que poderiam ajudá-la a separar seu corpo e seu duplo. Portanto, todas são úteis para nossa meta.

Explicou ainda que possivelmente nosso maior engano, enquanto homens, é acreditar que nossa saúde e bem-estar se encontram na esfera do corpo, quando na verdade o controle de nossas vidas se encontra na esfera do duplo. Esta falácia provém do fato de que o corpo controla nossa consciência. Emilito acrescentou que, em geral, nossa consciência é colocada na energia que circula no lado direito do duplo, o que resulta em nossa capacidade de pensar e raciocinar e lidar eficientemente com idéias e pessoas. Às vezes, acidentalmente, embora com mais freqüência, como resultado da prática, a consciência pode transferir-se para a energia que circula no lado esquerdo do duplo, resultando em um tipo de pensamento que não é tão direcionado para as realizações intelectuais ou para o trato com as pessoas.

— Quando a consciência é levada constantemente para o lado esquerdo do duplo, este é despertado e emerge — prosseguiu o caseiro — e o indivíduo torna-se capaz de realizar feitos inconcebíveis. Isto não deve surpreender, pois o duplo é nossa fonte de energia. O corpo físico é simplesmente o recipiente onde a energia é depositada.

Perguntei-lhe se algumas pessoas podem concentrar sua consciência em ambos os lados do duplo, de acordo com sua vontade. Ele assentiu

— Os feiticeiros podem fazer isso. No dia em que conseguir fazer isso, você será uma feiticeira.

Afirmou que algumas pessoas podem transferir sua consciência para o lado direito ou esquerdo do duplo, após concluírem com sucesso o vôo abstrato, simplesmente manipulando o fluxo de sua respiração. Estas pessoas podem praticar feitiçaria ou artes marciais assim como são capazes de manipular intrincados constructos acadêmicos. Ressaltou que o impulso de transferir a consciência regularmente para a esquerda constitui uma armadilha infinitamente mais fatal do que os atrativos da vida cotidiana, devido ao mistério e poder a ele inerentes.

— A verdadeira esperança para nós está no centro—explicou ele, tocando minha testa e o centro de meu peito —, pois no muro que divide os dois lados do duplo existe uma porta secreta, que se abre para um terceiro compartimento, estreito e secreto. Apenas quando esta porta se abre é que se torna possível experimentar a verdadeira liberdade. Emilito segurou meu braço e retirou-me da pedra.”

(A Travessia das Feiticeiras, Taisha Abelar)